Para o psiquiatra austríaco Rudolf Allers, em sua obra Psicologia do caráter (especialmente o capítulo VII, “Caracteres neuróticos e caracteres anormais”, p. 261, da tradução brasileira pela editora Agir, 1946), a falsidade é um traço fundamental da neurose. Ocorre quando o homem vive, ao mesmo tempo, em duas ou mais direções ou camadas distintas, mais ou menos contraditórias, revelando sempre uma diferença entre a conduta e o ser. Dois exemplos, aparentemente opostos, deste mesmo hiato são, de um lado, a pessoa que procura parecer mais do que de fato é; e, de outro, a que ao contrário exibe menos do que é capaz.

Tanto uma como a outra são condutas falsas em relação à experiência real. Num caso, a desmedida ampliação da experiência e, no outro, o ocultamento da verdadeira natureza da pessoa. Mas, além da ampliação e do ocultamento, há uma outra espécie de falsidade muito mais grave: a negação da própria realidade. Aqui, a pessoa vive como se a repudiasse, recusando-se a afirmá-la. Em sua origem, está o conflito provocado pela oscilação entre o que a pessoa realmente é e o que dela é cobrado.

Segundo o psiquiatra austríaco, só é verdadeiro o homem que, sem restrições, diz sim à sua finitude natural e humana, à sua insuficiência e impotência, a partir de uma atitude livre nascida do mais profundo núcleo do seu ser e, portanto, alegremente.

A falsidade é uma das fontes do comportamento neurótico. O homem neurótico, incapaz de afirmar a sua essência, é alguém perdido no combate errado: a luta contra a verdadeira natureza das coisas, uma guerrilha em que o eu desperdiça todas as suas forças contra a enormidade invencível do não-eu. Suas ações jamais atingirão o fim proposto. É um combate, portanto, condenado ao fracasso e, por isto, sem esperança, sempre acompanhado de medo e insegurança.

Essa negação da realidade pode ter duas consequências opostas: uma atitude de excessiva precaução ou alheamento de sua situação concreta, conduzindo à inação; ou a perseguição de êxitos fictícios que distraiam a pessoa do desespero e da insinceridade de sua posição. A primeira falsidade pode ser encontrada, em nossos dias, no comportamento evasionista dos que mergulham nas drogas, no sexo, no consumismo; e a segunda, nos movimentos políticos que agendam para logo mais uma Pasárgada utópica, cujo êxito estará sempre num futuro inalcançável.

Insiste Rudolf Allers que todas essas formas de falsidade — a que consiste numa diferença entre o ser e a conduta, e a falsidade que consiste em negar a própria realidade —, não são só características exclusivas do neurótico, mas da natureza humana em geral, e têm uma origem comum e universal: provêm do pecado original, da condição de natureza decaída do ser humano.

O que a neurose faz é exagerar e deformar algo que é intrinsecamente humano, de modo que, entre as pessoas normais e as neuróticas, não se pode traçar em princípio uma clara linha divisória. No fundo, todo homem é capaz de neurose, para a qual não existe uma predisposição específica, mas apenas ocasiões.

E aqui o psiquiatra católico toca num ponto fundamental: o homem inteiramente livre da neurose só pode ser aquele cuja vida decorre numa verdadeira dedicação às obras da vida — naturais ou sobrenaturais —, depois de ter assumido com franca decisão o seu ser criatural e as condições específicas dessa condição. O que significa que somente o santo pode estar acima da linha da neurose. Apesar de claramente haver episódios neuróticos na vida de alguns santos, são estados transitórios que eles conseguem vencer. Só na vida de santidade é possível evitar ou superar aquelas modalidades falsas de comportamento. A plena saúde mental só pode frutificar no solo de uma vida santa ou, pelo menos, dirigida para a santidade.

Rudolf Allers não lida com o conceito de gnose, mas parece óbvia a relação entre neurose e gnosticismo (a velha tentação de corrigir a obra da Criação). Essa luta do indivíduo contra a realidade criada por um Deus imperfeito ou injusto, adquire em nossa época — a era das revoluções — um caráter eminentemente coletivo. O neurótico e o revolucionário compartilham, repita-se, de uma mesma e única metafísica, fundada numa única e mesma fraude: a negação do pecado original.