A revolta contra a ordem da realidade, brilhantemente demonstrada pelo psiquiatra católico Rudolf Allers em seu livro Psicologia do caráter (especialmente no capítulo VII, “Caracteres neuróticos e caracteres anormais”, p. 261 da tradução brasileira da editora Agir, de 1946) conduzirá o indivíduo, inevitavelmente, ao egocentrismo, que é um dos traços marcantes do comportamento neurótico. Sem Deus no centro, nada mais resta ao revoltado senão autocentrar-se, orbitar em volta do próprio eu, como se, ao mesmo tempo, protegesse assustado um tesouro incessantemente ameaçado por piratas e dali mesmo, do porto do pânico, partisse para a grande aventura da existência, a megalomaníaca conquista do mundo — algo semelhante a construir uma casa sobre a areia.  

É daí que nasce o comportamento anormal, que algumas correntes psicológicas têm chamado de neurótico. Esse egocentrismo neurótico, todavia, só permite à pessoa enxergar o próprio umbigo, a falsa imagem que o espelho narcísico lhe devolve a todo instante, numa concentração obsessiva sobre si mesmo que se transforma numa espécie de droga e lhe impede de ver, ao redor, as obrigações do mundo que ele procura negar.

Rudolf Allers recorda alguns tipos pessoais de egocêntricos neuróticos, produtos dessa rebeldia contra a ordem do real. Parece, porém, que eles nunca estiveram tão visíveis e numerosos como hoje em dia, nessa época — a era das revoluções — em que a luta do indivíduo contra Deus e a realidade adquire um caráter social. Não é por acaso que o neurótico e o revolucionário partilhem de uma visão semelhante da realidade, feita de negação e destruição. Na neurose coletiva dos novos tempos, as categorias abaixo se reproduzem como pulgas num galinheiro sem dono e parecem convergir para um mesmo fim: uma sociedade antropolátrica, como desfecho obrigatório do moderno antropocentrismo.

O neurótico egocêntrico se desilude muito facilmente com Deus, o mundo e os homens, e isto apenas pelo fato de serem diferentes do que gostaria, ou imaginaria, que fossem; ou por oferecerem obstáculos indesejáveis à ação pretendida. A proibição é uma das fontes permanentes de seu inconformismo. Como Adão e Eva, não pode aceitar que haja uma árvore inviolável no Éden. A partir da década de sessenta, no século passado, essa neurose tornou-se uma febre coletiva sob o formato de um liberaciocismo geral na esfera dos costumes e dos valores.

O neurótico egocêntrico possui uma sensibilidade exagerada e magoa-se facilmente. A esta suscetibilidade se liga uma outra característica do comportamento neurótico, também facilmente encontrável em militantes da nova esquerda: a exagerada preocupação com o passado. Bom exemplo, tanto no plano pessoal como de grupos ruidosos, é a alegada injustiça que se pode experimentar em relação a ações contra eles cometidas anos ou até décadas atrás, no caso do indivíduo isolado, ou há séculos, no caso de movimentos sociais, e que ainda lhes dificultam o presente (o passado, seja ele marcado por uma infidelidade amorosa ou o regime escravocrata, é sempre responsabilizado pelas dificuldades de ação no presente). O esquerdismo ressentido de hoje, que se declara a serviço do futuro sem jamais se desvencilhar das ofensas passadas, encontra nessa neurose uma de suas fontes principais.

O neurótico egocêntrico é exageradamente escrupuloso. Tal escrúpulo, porém, não passa de uma máscara da soberba: acha-se de tal modo superior, que não admite o menor desvio de comportamento. À semelhança dos hipocondríacos, vítimas de um exagerado cuidado com o próprio corpo, o escrupuloso é uma espécie de hipocondríaco espiritual, sempre preocupado com a integridade da imagem que faz de si mesmo.

Vizinho à família do escrupuloso, há o tipo do hesitante incapaz de tomar decisões, cuja representação mais feliz, na literatura, talvez seja o personagem Hamlet, da tragédia homônima de Shakespeare. Essa modalidade de egocêntrico sofre de dúvida hipertrofiada, e as reflexões em que se perde, de forma compulsiva, ao redor de um problema, não são necessariamente por amor à solução. O problema apenas serve apenas para tornar possível a dúvida e as intermináveis ruminações. Nesse jogo, que pode ter a aparência de atividade rigorosa, outras questões importantes são deixadas de lado, numa ilusória aparência de atividade. Mas nada produz, pois o importante é justamente nada fazer. No polo oposto ao revolucionário contemporâneo, é desse comportamento que surge o niilismo da inação, o tédio que conduz ao álcool e às drogas, e, sobretudo, à falta de fé.

O neurótico egocêntrico pode ser também um grande ambicioso e ávido de publicidade, desejoso de poder e domínio. Em geral, revela-se extremamente rigoroso com respeito a si mesmo, embora displicente em relação ao próximo (não costuma manifestar o mesmo zelo em relação ao amor devido ao próximo). Vive tão absorvido pelo projeto pessoal, que se esquece dos demais. Quando faz algo pelo próximo, é para tornar-se digno de apreço ou livrar-se de repreensões. A realização pessoal é sempre o fim específico e último da sua ação e pensamento; o próximo pode ser apenas um meio para tal fim. O que também é verdadeiro quanto à vida sexual: seja no plano da fantasia ou da realidade, o outro serve apenas de meio para a obtenção do prazer. Esse tipo, que sempre existiu — como os demais descritos pelo psiquiatra austríaco —, em nossa época está se transformando em legião e ameaça tornar-se corrente dominante, ao lado do esquerdismo ressentido e preso ao passado.