Se o comportamento neurótico resulta da dificuldade de ver a realidade tal como ela é, segundo afirma o psiquiatra vienense Rudolf Allers, caracteriza muito bem a situação atual da humanidade, que não faz outra coisa: está seduzida por um modelo antropológico que não harmoniza com a natureza humana. Mais ainda: que se contrapõe à natureza humana.

Quem é, de fato, o ser humano? Uma criatura finita, que nasce homem ou mulher, trabalha e morre, e é destinada à eternidade. O que lhe constitui a essência é seu entrosamento com o ser em geral e suas leis, a busca de adaptação ao conjunto da realidade. É uma tendência fundamental de sua natureza mais íntima.

Mas o que pretende ser o homem em nossa época? Uma entidade autocriadora e autorreferente, cuja essência é definida por si mesma, com total liberdade, depois de perceber-se como existente. Primeiro existe, e sobre o terreno não baldio da existência (sobre o qual muito entulho é depositado desde sua concepção) lança as fundações do que deseja ser, podendo vir a ser homem, se nasceu biologicamente mulher; ou mulher, se biologicamente homem. Segundo Sartre, filósofo bem representativo do imanentismo moderno, o ser humano é o que ele consegue fazer com aquilo que dele foi feito, sem limites em relação a uma prévia “lei natural”.

Em seu livro Psicologia do caráter (há tradução brasileira pela editora Agir, de 1946), Rudolf Allers, que foi aluno de Freud e mais tarde romperia com a psicanálise, esta é a verdadeira fonte do comportamento neurótico: a incapacidade do homem de submeter-se à superioridade do mundo exterior. Desta insubmissão nasce a rebeldia contra Deus e o próximo, a condição de criatura, as leis que governam o mundo, a ordem jurídica, social e cultural, os limites impostos pela natureza física, enfim, contra tudo o que se oponha à vontade de poder do eu.

Contudo, essa revolta contra o não-eu é um tiro que sai pela culatra: será sempre, e ao mesmo tempo, uma rebelião contra si mesmo, contra a própria pessoa e sua natureza mais íntima, pois se dirige contra a condição de criatura, algo que ser humano nenhum tem o poder de revogar.

Entre a consciência da própria fragilidade (em relação ao não-eu), e a atitude de rebelião contra este último, aparece um elemento fundamental do comportamento neurótico: o medo, que é consequência inevitável da percepção de um poder superior. Todas as situações que revelam a impotência do indivíduo provocam medo. O temor é um fenômeno indissociável de qualquer estado neurótico, o terreno de areia sobre o qual se edificará a frágil construção da revolta contra a ordem da realidade.