A tirania é uma sedução permanente de quem governa: se este encontra ocasião — e nenhuma ocasião é mais propícia do que a atual fragilidade das massas sem fé em Deus —, não hesitará em seus experimentos despóticos.

Vimos, nos últimos meses, que não somos tão fortes como pensávamos, nem nossos governantes tão poderosos e nossa ciência tão exata como faziam crer. Na visão da filósofa católica Chantal Delsol (v. aqui), o vírus está derrubando a nossa presumível “era da onipotência”.

Segundo ela, nossos governantes administram, mas não governam, isto é, gerenciam previsões, certezas, burocracia, controle e números, mas ainda não aprenderam a governar, pois isto significa correr riscos, assumir a contingência, subir a ladeira íngreme do poder, e tudo isto já não é ensinado nas grandes universidades. Têm mais orgulho de se apresentarem como gestores públicos do que chefes de Estado.

Estes sabem que a população mimada deseja mão forte. No cérebro de seus filhos mal-acostumados, o governante deve ser todo-poderoso e, se não o for, deve ao menos fingir que é, pois do contrário não se sustentará no poder. Estamos a caminho daquilo que a autora chama de “totalitarismo soft”, ao qual as massas, dominadas pela ideologia higienista e seus exagerado cuidado com o corpo, se submeteriam de bom grado em nome da boa saúde física.

No entanto, que troca foi essa que muitos governantes fizeram, forçando os países a trancar a economia e jogar uma dívida enorme no colo do futuro, a ser paga pelas novas gerações? Será um bom negócio expor os mais jovens à falência e ao desemprego crônico, em vez de investir rápida e fortemente em pessoal sanitário qualificado e leitos de reanimação suficientes para os doentes mais graves?

A prova da hipocrisia desse salvacionismo higienista (não esquecer que vivemos sob a tentação cada vez maior de aprovar leis que facilitam a eutanásia) está no que ocorreu nas casas de repouso, no ano que passou. Sob a desculpa de proteger os idosos do vírus e da morte, algumas providências aparentemente “humanitárias” foram tomadas, pondo-se em prática o que a filósofa chama de “protocolos dementes”: para a conservação do pouco que lhes restava de vida biológica, o preço a pagar pelos mais velhos era a abolição do que possuíam de afetividade, privando-os da companhia de familiares e amigos no momento mais delicado de suas vidas. Os corpos estariam vivos por mais alguns anos, mas abrigando almas mortas.

Mas o que a máquina burocrática do Estado moderno tem a ver com almas? Interessam-lhe sobretudo os números, que alimentarão vistosas estatísticas de “vidas salvas”. Este é o ponto de chegada inevitável da ideologia higienista, para a qual o bem mais precioso a conservar é o corpo.