Coisa muito interessante, no Dom Quixote de Cervantes, são os provérbios e ditos populares, que saem a toda hora da boca do herói e de seu escudeiro. Diz o sábio Sancho ao teimoso Quixote, no começo do capítulo XVIII:

O melhor e o mais acertado, segundo meu fraco parecer, seria voltar ao nosso lugar, agora que é tempo de colheita, e cuidarmos da nossa fazenda, em vez de andar de “ceca en meca y de zoca en colodra”, como se diz por aí.

Evidente que Dom Quixote não concordou: mandou que se calasse.

Que significa isso de “andar de ceca en meca y de zoca en colodra”? Entre as 5.554 notas que Diego Clemencín (1785-1834), o famoso comentador do Quixote, escreveu sobre o romance de Cervantes, há uma que explica o aforismo. No sossego de uma fazenda perto de Madrid, onde passou os últimos anos de vida explicando o Quixote e, de vez em quando, puxando a orelha da prosa cervantina, Clemencín escreveu o seguinte:

“Ceca é uma palavra árabe que significa casa da moeda. Os mouros as tiveram em várias partes da Espanha, nomeadamente em Córdoba e arredores. Os cristãos da Península deram, não se sabe por que, este mesmo nome à grande mesquita de Córdoba, que foi um dos lugares de maior devoção para os maometanos, que a frequentavam com suas romarias e peregrinações. E como fizeram o mesmo com Meca, da consonância acidental entre Ceca e Meca, e da distância que há entre Meca e Córdoba, de tudo isso, combinados confusamente, veio a expressão proverbial de “andar de Ceca em Meca” para denotar a errância daqueles que andam de uma parte a outra sem um propósito preciso e determinado. De “ceca” era [sonoramente] fácil ir para a “zoca”, e também passar [semanticamente] de “zoca” para “colodra”, pois são ambos nomes de instrumentos ou utensílios pastorais. “Zoca” ou “zoco” é o mesmo que “zueco” [tamanco, calçado de madeira, assim como “colodro”]. Segundo o Comendador Griego, citado por Covarrubias em seu Tesouro da língua castelhana, ir de “zocos en colodros” significa sair de um perigo e entrar num maior, semelhante a ir de Cila a Caríbdis, em linguagem rústica. Atualmente, se chama “colodra” o vaso ou vasilha formado pelos pastores de um chifre de boi, e é usado para a ordenha no campo.”

Clemencín estava se referindo a Caribde, sorvedouro no estreito de Messina, cidade da Sicília; e a Escila, ou Cila, nome de um rochedo que há em frente ao sorvedouro. O navio que escapava de um perigo podia cair no outro. Daí o ditado: ir de Cila a Caribde, mais ou menos como ir de Ceca a Meca.

Um dia, folheando um dicionário de italiano, encontrei uma máxima que também integra o mesmo time: “Cadere dalla padella alla brace”: escapar da frigideira e cair nas brasas, que também é ir do mesmo à mesma coisa. Outra versão da idéia aparece numa das traduções para o português do romance de Cervantes, a de Almir de Andrade, em que há a seguinte solução para a segunda parte da sentença de Sancho. O intransponível “De zoca en colodra” virou, num passe de mágica tradutória, “ir de Herodes a Pilatos”.