Depois de banidas as religiões tradicionais, que davam sustentação ao mundo ocidental, as pessoas se viram de repente numa situação de extrema debilidade espiritual, fartamente revelada pela crise da covid. Para a filosofa Chantal Delsol, “Não temos mais as ferramentas mentais, éticas e espirituais para responder à situação. Essas ferramentas se tornaram obsoletas com a modernidade e o seu progresso onipresente. Podemos ver até que ponto somos populações frágeis, fragilizadas pela comodidade, pelo conforto, pela paz eterna, pelo prestígio das aparências, pelas promessas de facilidades cada vez maiores e, sobretudo, pelas promessas de eliminar todos os males da condição humana.”

Os pobres seres humanos protegidos por essa falsa antropologia, à espera do prometido Admirável Mundo Novo que lhes pouparia da morte e tornaria a vida uma festa permanente, de repente se viram cruelmente acuados por um vírus mais agressivo que o normal nas últimas décadas, mas de mortalidade incomparavelmente menor que a das conhecidas pestes históricas, e caíram “abruptamente no mundo do destino, da fatalidade, da doença letal que atinge logo ali, na esquina de nossa rua.”

Chantal Delsol chama a atenção para a notória diferença entre o homem de hoje e o de poucas décadas atrás: “Desde o início do período incerto e ameaçador em que vivemos, a questão mais intrigante é a comparação com as 30.000 mortes ocorridas na França em dezembro de 1969, atingidas pela gripe de Hong-Kong, que superlotou hospitais com pessoas em dificuldade respiratória, mas que passou completamente despercebida. A diferença com nossa reação atual — desmedida e unânime, permeada de pânico —, põe algumas questões, que revela uma grande transformação na ordem de nossas crenças, referências e imperativos.”

Comparada à antiga crença num futuro brilhante da espécie, prometido pela esquerda, nada é mais deplorável do que a atual modalidade de niilismo que move as massas, conduzidas por lideranças cuja única razão de ser é a cômica utopia transumanista, que acredita na evolução física e mental do ser humano por intermédio da ciência e da tecnologia. Para Chantal Delsol, era preferível a “religião” dos comunistas, socialistas e seus aliados: pelo menos “tínhamos ideais, mesmo absurdos ou viciosos.”

A filósofa, filha de uma França que já foi mais robusta e resistente, não gostou nada do modo como o atual presidente de seu país conduziu a crise sanitária: “Nosso jovem presidente — bem-asseado, bem-comportado e bem-instruído — não dispõe de nenhuma chave para entender uma situação tão estranha à sua felicidade de eterno perfeito. O trágico lhe é estranho: não lhe ensinaram isto na escola. Ele ignora que o perigo é o país do futuro e que, por essa razão, seria preferível a coragem ao cálculo.”

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