O velho higienismo tem suas origens no século XIX, quando alguns médicos passaram a preconizar um conjunto de meios e regras, mais ou menos naturais, que visavam garantir o bem-estar físico e mental do indivíduo e preveni-lo das doenças. Possuía um claro matiz naturista, de recusa de medicamentos químicos e intervenções cirúrgicas, mas havia um zelo excessivo na aplicação das normas de higiene, o que imprimia nessa corrente um certo aspecto de seita.

Esse espírito naturista no cuidado com o corpo não desapareceu, mas sobrevive em grupos minoritários, ligados a alguns movimentos religiosos ou ideológicos. Contudo, permanece em nossa época uma difusa tendência higienista, que mantém da antiga o cuidado exagerado com o organismo biológico, sem recusar os meios tecnologicamente avançados de tratamento da saúde. Mais ainda: esse novo higienismo vai se transformando em algo estrutural do homem contemporâneo.   

A filósofa francesa Chantal Delsol, em dois artigos mais ou menos recentes para o jornal Le Figaro, parte dessa versão pós-moderna do higienismo para a compreensão do que está ocorrendo com o mundo, nos últimos dezoito meses de “covid”.

Para ela, após a falência das ideologias, nossa época vive sob o estrito controle da mentalidade higienista. Para o Estado de hoje, o que mais conta é a vida biológica, e só a moral que a ampara tem o respaldo oficial. Nessa situação, uma epidemia como a covid passa a ser uma questão de Estado, pois nada é mais ameaçador do que a guerra decretada por um vírus invisível.

A cega confiança na ciência desmoronou:

“O que mais chama a atenção no período atual é também essa impressão de retrocesso: pensávamos que tudo podíamos prever e tudo saber — e constatamos, nessa pandemia, a nossa abissal ignorância, e a ignorância dos próprios especialistas, contradizendo-se a todo instante. Essa sensação assustadora de não trazer mais o futuro nas mãos é estranha para nós. Fomos acostumados a normas, a controles, a protocolos, enfim, a certezas. Perante a incerteza de um futuro angustiante, as faculdades que devemos desenvolver são, para nós, muito novas: enfrentar o risco desconhecido, confiando nesta coragem que se desdobra diante do perigo; na consciência moral que toma decisões em situações excepcionais.”

https://www.chantaldelsol.fr/hygienisme-ou-la-vie-nue/