A linguagem sempre foi uma poderosa arma de guerra. Mikhail Bakhtin, um dos teóricos gurus dos nossos cursos de Letras, logo no início do seu livro sobre a filosofia marxista da linguagem, Marxismo e filosofia da linguagem, adverte que “O domínio do ideológico coincide com o domínio dos signos: são mutuamente correspondentes. Ali onde o signo se encontra, encontra-se também o ideológico. Tudo que é ideológico possui um valor semiótico.” Seria preciso colocar “a palavra em primeiro plano, no estudo das ideologias.”

Evidentemente, o marxista Bakhtin — que escreveu essas palavras há cem anos, logo depois de vitoriosa a revolução bolchevista — usa aqui o termo ideologia não no sentido genérico de pensamento comum de certo grupo social, nem no sentido de pensamento a serviço de um projeto político, mas especificamente como conjunto de conceitos criados pela burguesia para justificar sua dominação sobre a classe trabalhadora.

Um discípulo de Bakhtin, o linguista V. V. Ivanov, reafirmando a noção de que as línguas são meios de transporte das ideias válidas em determinado grupo social, afirmava que o indivíduo assimila, já na infância, junto com o próprio mecanismo da língua, o sistema de valores da sociedade nela embutidos. Assim, aprender a falar, a ler e a escrever seriam, em vez de início da libertação do espírito, o começo do aprisionamento ideológico, e a língua um verdadeiro instrumento de controle comportamental.

Essa importância dada à palavra e à sua função transformadora, vinha da convicção de que a linguagem humana, além de veículo de significados ou instrumento de cognição, seria uma fábrica produtora de realidades: os nomes dados às coisas determinariam nosso modo de vê-las e de lidar com elas. Há mais de cem anos que os comunistas acreditam nisto; prova-o o estrito e criminoso controle que impuseram à literatura e a toda produção escrita da União Soviética.

Manipulação da linguagem e controle do comportamento sempre estiveram muito unidos, na União Soviética. Manuais secretos para treinamento da técnica da “desinformação” foram produzidos pelos comunistas russos. Segundo o ex-oficial da KGB Anatoli Golytsin, na obra Novas mentiras velhas, o próprio Lênin, nos anos 20, já defendia o uso estratégico de “linguagem moderada” pelos agentes do regime, aumentando a distância entre o que as palavras diziam e a violência real do regime soviético.

Na era pós stalinista, para pasteurizar a imagem do regime totalitário, expressões como “a ditadura do proletariado” ou “leninista” eram cuidadosamente evitadas, tática seguida de perto pelos partidos eurocomunistas que, nos anos setenta, passavam por dissidentes, quando há boas chances de terem sido estimulados e até financiados por Moscou.