Nunca compreendi por que os cursos que formam psicólogos não se estruturam, fundamentalmente, em torno da literatura, e só secundariamente das disciplinas propriamente científicas do setor.

Infelizmente, a realidade é outra. Enquanto a psicanálise atua como braço psicoterapêutico de políticas libertárias, e a psicologia comportamentalista concebe o ser humano como mero animal condicionável segundo os padrões da sociedade de consumo, a grande literatura faz de fato o verdadeiro trabalho de prospecção da alma humana.

Escreveu o filósofo Mário Ferreira dos Santos, muito acertadamente, que “Enquanto alguns psicólogos permanecem manuseando palavras mortas, os artistas fazem psicologia. Comunicar uma alma a outra é o trabalho dos estetas. Nunca, como agora, numa época em que a escala de valores puramente utilitária predomina na sociedade, mais carecemos de artistas. A arte é um estímulo para a vida. Faltar-lhe-ia apenas esse caráter para dar-lhe um valor, que os utilitários bem poderiam incluir em sua capenga escala de valores.”

O mais engraçado é que os próprios cursos de Letras já não querem mais saber das grandes obras literárias. É algo difícil de acreditar, mas os melhores críticos literários não saíram dos cursos de Letras. Eram jornalistas, advogados, médicos, padres… Com uma hora semanal de literatura nos cursos de jornalismo, psicologia, direito ou medicina, correríamos o risco de ter, de volta, os leitores mais inteligentes.

Literatura não harmoniza com especialização; é, por natureza, refratária a formalismos de qualquer espécie.

O principal eixo disciplinar de um curso de letras teria de ser a literatura, e não a linguística. Se o objetivo é eliminar a leitura inteligente, então sim: estruture-se um curso de letras com linguística sobreposta à gramática, teorias literárias da moda em vez de literatura; dificulte-se o acesso à literatura universal e às humanidades. Um currículo de curso de Letras que não se abra à filosofia, à História universal, às demais artes, à boa ciência social e psicológica, irá sempre, forçosamente, formar leitores incompletos.

De que serviriam, porém, as melhores disciplinas e a melhor grade curricular, se os cursos de letras continuarem a acolher os alunos mais despreparados, para depois exibirem altos números nas estatísticas oficiais? A tragédia pedagógica se consuma, de fato, quando esses alunos se associam a professores ideologicamente comprometidos, incapazes de compreender a verdadeira natureza da literatura — esse tipo de “discurso” que, ao aproximar-se intuitivamente da realidade total, exige múltiplas vias de acesso para a sua compreensão.