O que a humanidade perdeu ou ganhou no seu inevitável e multimilenar trânsito do campo para as cidades? Ficou mais rica e saudável? Cresceu em virtudes? Debilitou-se moralmente?  

Todos já fomos caipiras, um dia: décadas atrás ou há alguns milênios. A urbanização, contudo, é uma vocação inevitável para a maioria das pessoas, mas cada época apresenta os próprios problemas. Tome-se como exemplo o caipira paulista e mineiro, do qual a maioria de nós descende. Ao migrar para os grandes centros urbanos, sua vida não se tornou menos íngreme do que era antes: a ladeira do trabalho continuava difícil de subir.

Mas se, ao trocar o serviço da roça pela operação de máquinas industriais, não ficou livre do esforço físico, a jornada de trabalho passou a ser mais limitada: o grande êxodo rural brasileiro, em meados do século XX, foi posterior à legislação trabalhista da CLT dos anos trinta, mais favorável a empregados. Contudo, a troca do trabalho rural, mais livre e a céu aberto, pelo industrial, mecanizado e uniforme, em geral em ambiente fechado e pouco salubre, certamente não esteve isenta de consequências tanto na saúde física quanto psíquica.

O esforço físico diminuiu ainda mais com a crescente automação do setor industrial, mas quando a produção passou a ser mais planejada, com o aprimoramento da tecnologia do trabalho e o melhor êxito da fabricação em série, passou a conhecer uma espécie de sofrimento antes desconhecida: a pressão psicológica pelo desempenho, pois era necessário lutar pela manutenção de uma vaga mais qualificada, numa sociedade cada vez mais competitiva em que as estações de trem, e depois de ônibus, não deixavam de acolher, vindos do interior, uma massa crescente de futuros concorrentes ao mesmo posto de trabalho.

Os filhos e netos do caipira, já nascidos na cidade grande, tiveram oportunidade de trabalhar em atividades menos fatigantes do que carpir mato ou operar máquinas arcaicas: além dos que permaneceram na fábrica do pai e do avô, agora tecnologicamente mais bem aparelhadas, ou noutras atividades que também demandavam como levantar ou pintar paredes, outros preferiram dirigir táxis e caminhões, entregar mercadorias, cuidar de jardins da classe média. Um número menor conseguiu ir para o serviço bancário ou o mundo da contabilidade, o comércio ou o serviço público, a advocacia ou o magistério.

Em geral, este é o percurso intergeracional dos homens e mulheres que deixaram o campo para melhorar de vida nas cidades. E assim são as cidades de hoje, com suas indústrias e serviços, seus moradores mais rudes ou mais “civilizados”: alguns, por ainda conservarem a fibra dos antepassados lavradores, são mais capazes de enfrentar com menos prejuízo as provações da vida presente; e muitos outros não, certamente a maioria, já contaminados pelo regime de facilidade com que a sociedade industrial e pós-industrial — a open society dos liberais progressistas — vem condicionando o comportamento e as expectativas humanas, reduzidos ao aqui e agora da carne perecível.

Aqui chega-se ao ponto decisivo do jogo: a questão da educação moral do homem moderno, mais afeito ao transitório que ao permanente, já bem distanciado de suas origens rurais e interioranas. A que preceptores foi entregue, depois que boa parte da Igreja, cansada de sua missão sobrenatural, rompeu com a própria tradição magisterial e decidiu transigir com o mundo, com suas mais recentes e inaceitáveis exigências no terreno da sexualidade e da família, complacente com o divórcio, o aborto, a eutanásia, a contracepção, a prática homossexual tanto fora quanto intramuros?

A Igreja sempre educou para as coisas difíceis ou dolorosas de suportar: as durezas da vida. Em nenhum momento dos evangelhos se diz que o homem tem o direito de esperar pelo paraíso neste mundo. É exatamente o contrário. O “toma a tua cruz e me segue” talvez seja a melhor e mais breve síntese do cristianismo: a primeira frase do período resume a moral cristã, a segunda o fim último da vida (que, ao menos para um certo número de pessoas, continua a ser a salvação das almas).

A moral cristã não visa nada mais, além de produzir pessoas fortes para o combate espiritual e o enfrentamento do mistério da iniquidade, pois crê que este êxito seja o pressuposto da recompensa eterna. No entanto, não confia exagerada e pelagianamente no próprio esforço humano; não dispensa, antes recomenda vivamente a utilização dos sacramentos e o hábito da oração como meios para atingir aquele objetivo moral de plena identificação com Deus, presentes na segunda parte do enunciado “toma a tua cruz e me segue”.

A Igreja nunca fez segredo sobre as dificuldades do caminho: há uma cruz, uma ladeira e um sacrifício final, antes da vitória definitiva sobre a morte. Tanto o homem mais fisicamente forte da roça, quanto o mais espiritualmente frágil das metrópoles, eram convidados ao campo de batalha, fosse o inimigo o mouro invasor, o herege ímpio, a peste negra da Idade Média, as ideologias ateias, o consumismo reificador — e até um vírus como o atual, que veio das profundas da Ásia para revelar ao homem contemporâneo o nível deplorável de fraqueza a que chegou.