Com a vinda do homem do campo para as cidades, em meados do século XX, sobretudo entre as décadas de quarenta e sessenta, migrou junto uma certa visão de mundo mais conservadora que, mesmo em contato com o natural dinamismo do meio urbano, não sofria erosões mais profundas, pois o sistema de valores vigentes no Brasil ainda tinha por base a moral cristã: o que o padre cobrava dos fiéis nas homilias das Missas dominicais, frequentadas pela maioria da população, era válido indistintamente para o homem urbano e o rural.

A paisagem urbana modificava-se com a chegada dos caipiras e interioranos: enquanto a norma culta da língua torcia o nariz às variantes linguísticas trazidas pelos novos intrusos, os restaurantes viam-se obrigados a incorporar, aqui e ali, alguns itens de proveniência regional em seu cardápio e as rádios passavam a tocar canções de sabor mais telúrico, muitas vezes até com ritmos acentuadamente regionais. O próprio cinema nascente procurava satisfazer, com seus mazzaropis e cangaceiros, o novo público que então enchia as salas de projeção — público que também absorvia filmes que chegavam de Hollywood e já traziam consigo novas ideias, muitas delas em contraste com o que as pessoas haviam aprendido em casa, na escola e na Missa.

O nível de vida dos novos habitantes dependia das condições de trabalho nos novos centros: nos mais industrializados, provavelmente fosse menor o número de favelas, delinquentes e criminosos. O certo é que a existência de um sistema moral de freios garantia uma relativa estabilidade de costumes e valores, mais ou menos compartilhado pelas escolas (e não só as confessionais), as paróquias católicas e as salas de culto protestantes.

Nos anos sessenta, já com os grandes centros urbanos bastante inchados pelo êxodo rural, eis que irrompem, nesse cenário relativamente acomodado, alguns agressivos fatores de desestabilização, em especial os movimentos ideológicos de esquerda, dispostos a mudar, inclusive pelas armas, a estrutura sociopolítica do país; e o surgimento de uma cultura de massa (através da música popular, da televisão, do cinema), estimulando o consumo e os prazeres do corpo. Ambos vinham com a séria disposição de questionar os valores e princípios que a civilização ocidental havia conservado ao longo de quase dois mil anos, num processo que tinha conseguido dosar tanto elementos de permanência (o suficiente para preservar a sua identidade) como de mudança (necessários para atender às demandas de cada novo e particular período).

Paralelamente a isto, e não sem relação de causa e efeito, o sistema moral de freios do catolicismo, e do ainda minoritário cristianismo evangélico, começava a ceder. As escolas — e, de forma crescente, até as igrejas, por influência das novas teologias de teor progressista — passaram a atuar como veículos das novas ideias transgressoras. “O Ocidente perdeu Cristo e por isto decai”. Esta frase, atribuída à Dostoiévski, explica de modo luminoso tudo o que está acontecendo com o mundo, nos últimos dois séculos. Mesmo quem não tem fé, mas tem juízo, costuma concordar com este diagnóstico: se o cristianismo já não é caminho para a vida eterna, será o melhor que existe para a condução da História. Sem os princípios morais cristãos, coroamento da boa moral greco-romana fundada na “lei natural”, nada que era sólido podia subsistir e logo se desmanchava no ar. Quando os caipiras, e seus descendentes, passaram a viver sem os velhos parâmetros de ação moral, trazidos da roça e do interior, transformaram-se em peças cada vez mais passivas numa partida de xadrez disputada pelas piores paixões humanas.