O cristianismo soa como algo completamente anacrônico nesses tempos atuais, de perspectivas planetárias, em que o mundo parece transformar-se numa aldeia global sem mais raízes nas particularidades de cada povo e nação, e cuja religiosidade, em avançado processo de fabricação, é um ambientalismo panteísta, de idolatria da natureza e dos instintos elementares.

Não seria para menos. Afinal, a doutrina do Nazareno, que ligava o Céu e a terra como a escada de Jacó, pela qual subiam e desciam anjos, tinha os pés bem plantados no chão judaico. É de uma região bem particular que Jesus extrai as imagens que aparecerão em seus ensinamentos e parábolas; as pessoas que com Ele convivem são datadas e bem situadas naquele ambiente seco do Oriente Próximo, com seus costumes e suas tradições, seus sapatos e suas roupas, suas bebidas e suas comidas, suas plantas e seus animais. Os evangelistas são escritores atentos à realidade sensível — hoje, os chamaríamos de realistas —, que nunca perdem de vista a vida como ela é, com seus pequenos prazeres, seus sofrimentos e suas expectativas.

Esse aspecto “regionalista” do Novo Testamento até que poderia cair no agrado do homem pós-moderno como algo exótico, povoado de personagens romanticamente esquisitos e rústicos, se a esse cenário telúrico não se vinculasse o fardo pesado de um pensamento religioso que vinha falar de cruz — do sofrimento da cruz como pré-condição da felicidade.

Aí já seria pedir demais a boa parte de nossos contemporâneos, guiados pelo conceito niilista de “qualidade de vida”, que antepõe ao espírito o cuidado obsessivo com o corpo. Quando a verdadeira preocupação é com o aqui-e-agora da dieta balanceada, das academias de ginástica, dos salões de estética, das roupas de grife (à alma basta a vaga espiritualidade new-age de um yoga bem adaptado às expectativas ocidentais), há pouco sentido em falar de salvação e perdição eternas, a partir de méritos ou deméritos espirituais.

E isto é tudo o que o cristianismo na verdade é: uma escada de Jacó por onde se ascende da terra ao Céu. Uma escalada em que não é permitido, a quem sobe, olhar para os degraus que vai deixando para trás, sob pena de se converter numa inútil estátua de sal. Uma escalada que subentende, é certo, uma certa doutrina religiosa, mas que, antes de ser doutrina, é um conjunto de fatos que só depois geraram uma doutrina, vividos por um homem semelhante a nós em quase tudo. Um “homem” que nunca se preocupou com dieta balanceada, academias de ginástica, salões de estética, roupas de grife.