O romancista Graham Greene (1904-1991) envelheceu com suas dúvidas religiosas, e mesmo assim não queria ficar muito distante da Igreja, como filho que vive ranhetando com a mãe, mas não desgruda da barra de sua saia.

Manteve, nesse período final de sua vida, uma amizade de quase trinta anos com o sacerdote espanhol Leopoldo Durán (1917-2008) — um padre dos novos tempos —, com quem se encontrava, uma vez ao ano, para viagens no interior da Espanha, sobretudo na Galícia (viagens, aliás, que não eram só turísticas: o escritor era informante do serviço secreto britânico).

Quem era padre Durán? Era um galego, natural da província de Ourense, que pertenceu de início à ordem dos vicentinos, deixando-a nos anos cinquenta para atuar como padre secular na diocese de Astorga, da qual mais tarde pediria dispensa para se dedicar exclusivamente ao ensino e aos estudos literários.

De certo modo, foi inspirando-se nesses encontros e nas longas conversas com o padre espanhol, que o escritor concebeu e escreveu um de seus últimos romances, Monsenhor Quixote, publicado em 1982, nove anos antes de sua morte.

Ao longo de toda a obra, um padre e um ex-prefeito comunista (Greene tornara-se simpatizante das ideias marxistas e amigo de governantes de esquerda) dialogam sobre os mais variados assuntos, de preferência sobre as dúvidas teológicas do próprio escritor, como o dogma da Trindade, do inferno, da Ressurreição, as dificuldades com a teologia moral católica (continência sexual, veto à contracepção, proibição do aborto etc.), críticas ao General Franco e ao Opus Dei. Nem faltam ironias com alguns dogmas do próprio marxismo, pois o escritor garantia que não era comunista, apesar de sua notória amizade com líderes políticos de esquerda.

É o romance de um drama espiritual — ou, mais que romance, um ensaio romanceado —, que o autor preferiu disfarçar e revestir com a capa da linguagem humorística, valendo-se inclusive do recurso parodístico a partir da obra-prima de Cervantes: o nome do padre é Quixote, o ex-prefeito é apelidado de Sancho, o carro velho do padre é Rocinante. Não faltam as viagens pela Espanha, os títulos longos e descritivos de cada capítulo da obra e sobretudo o vinho manchego, de que eram grandes apreciadores o padre e seu amigo fictícios (e, na vida real, Graham Greene e padre Durán, que fazia questão de dizer que não se reconhecia retratado no padre conservador do romance).

A fé católica, mais até que o comunismo, é espremida com humor ferino contra a parede da dúvida agnóstica, que não esconde uma ponta de desespero. No fim das contas, a Igreja sai muito mais ferida, no livro, do que o comunismo. Não seria exagero algum chamá-lo de romance anticatólico, escrito por um católico contaminado politicamente pelo esquerdismo e liberal-progressismo contemporâneos e, em termos religiosos, pela teologia progressista e neomodernista.

Como seria de esperar-se de um agnóstico, a dúvida é o personagem central desse romance. No fim da outra novela, a da vida real, foi o progressista padre Durán que acompanhou o progressista Greene nos últimos momentos da caminhada terrena, ministrando-lhe os sacramentos de fim de estrada. Por ordem expressa do escritor, só o amigo sacerdote poderia estar com ele naqueles instantes decisivos. O que se passou ali, naquele quarto de hospital suíço, entre Deus e o homem que deixava este mundo, só Deus sabe.

Apesar de, nesse período final de sua vida, Greene se dizer um “católico ateu ou agnóstico”, o certo é que ainda insistia em carregar em sua carteira uma fotografia do Padre Pio (ver aqui), santo que prometeu ficar rezando na portaria do Céu, sem entrar, aguardando que por ele passasse o último de seus filhos espirituais. Graham Greene não foi exatamente um filho espiritual do Padre Pio, mas é possível contar com a possibilidade do santo frade do Gargano ter intercedido, nos últimos momentos de vida, por esse inglês cuja experiência de fé nunca foi tranquila, sempre atormentado pelas dúvidas e presunções da modernidade.