No início de 2021, no encontro (virtual) de chefes de Estado em Davos, na Suíça, Wladimir Putin disse algo que reflete bem o momento atual: espicaçado pela peste, o mundo se encaminha para um confronto de todos contra todos. Gostemos ou não do ex-oficial da KGB, essa frase dá o que pensar.

O presidente da Rússia falava como chefe de Estado e sua preocupação era com guerras de fato. Essas, porém, são produtos de conflitos anteriores, vividos sob o ar-condicionado das redações ou dos departamentos acadêmicos. O poeta alemão Heine já falava do potencial destrutivo de certas ideias, brotadas de modo aparentemente inofensivo nas cátedras universitárias, mas que poderiam dar cabo de toda uma civilização; e exemplificava com Rousseau, cujas ideias, nas mãos de um Robespierre, espalharam o terror pela França.

Quando se chega a essa situação de confronto político e cultural, como a que se vive hoje em dia, em que as partes envolvidas (socialismo, liberalismo progressista, liberal-conservadorismo) não conseguem se compreender, só parece haver uma saída: a parte mais ajuizada deve tentar compreender as demais, começando por um balanço atualizado de si própria e o estudo profundo das ideias e motivações existenciais das partes oponentes.

Isto pode soar a truísmo acaciano, mas exprime, ao contrário, uma questão de vida ou morte, de necessidade de sobrevivência do conjunto da obra, que por princípio é superior às partes que o compõem.

A necessidade de conhecer o inimigo pertence ao bê-a-bá dos tratados de guerra, e não há por que não estender esse imperativo a uma das mais perigosas forma de inimizade que há no mundo: a das ideias opostas às nossas. As ideias de hoje poderão ser os mísseis aéreos de amanhã, os drones militarmente teleguiados, as armas biológicas, destruindo povos e culturas. Por isso, não convém desprezá-las, como se fossem simples adversárias num inócuo jogo de cartas no clube social mais perto de casa.

É preciso levá-las a sério, trazê-las sempre diante dos olhos, examiná-las com detida atenção, dispondo-as de modo que fique o mais claro possível o sistema em que se enquadram, e que cremos virtualmente nocivo. É preciso estar permanentemente disposto a admitir que, quando se trata de conhecer a realidade, inclusive o próprio sistema de ideias estará sempre incompleto e pode encontrar elementos úteis no sistema contrário, mesmo que continue acreditando na inconveniência do lado oposto e na eficácias da própria percepção da realidade.

As ideias inimigas não devem permanecer desdenhosamente à margem, no distante horizonte, como se se tratasse apenas de uma vaga névoa pronta a desaparecer. Elas não sairão tão facilmente de nossas vidas, a menos que sejam desacreditadas por ideias que julguemos superiores. E só há uma forma de derrotar ideias ruins: a redução do seu arco de influência junto ao público, após persistente atuação no sentido inverso, procurando desmontar o sistema falacioso. E aqui já se torna manifesto um aspecto que não pode ser esquecido: essa disputa ideológica não se dá pelo conjunto da sociedade, mas é obra de uma pequena parcela da população, que desde sempre tem decidido o destino da maioria.

O que não é possível fazer com soldados e oficiais de carne e osso do exército inimigo — estudá-los bem de perto para melhor vencê-los —, pode ser feito com as ideias contrárias às nossas, as quais, embora também sejam produtos de pessoas concretas, de alguma forma delas se distanciam e podem ser consideradas em si mesmas, em sua independência relativamente abstrata e (ao menos por enquanto) inofensiva.   

A tendência inicial costuma ser, sempre, a de convidar o outro lado para a discussão de ideias, a velha e veneranda “disputatio”, mas isto só é possível quando os dois lados em contenda, mesmo convencidos da superioridade geral de sua posição, ainda estão dispostos a avançar na busca permanentemente aberta da verdade (ao menos daquela verdade humanamente cognoscível). Sem essa dupla disposição não pode haver debate, mas só luta pela hegemonia das próprias ideias, quando só restará a cada um dos lados voltar-se para a imensa maioria do público, sempre à espera — de celular à mão, imersa nas redes sociais — de ser convencida por aquela minoria, formada pelas partes ideologicamente conflitantes e hoje eletronicamente armadas.

A guerra ideológica é inevitável, e varrê-la para debaixo do tapete do bom-mocismo politicamente correto só contribui para o fortalecimento das más ideias, o que foi expresso de modo perfeito (e sempre citado por todas as partes em conflito, mesmo as equivocadas) na colocação atribuída a Martin Luther King, de que o principal problema não é o que fazem os maus, mas o silêncio dos bons. A guerra cultural é a chance que existe para evitar-se a guerra propriamente dita, que antes destruía vidas e agora pode destruir inclusive o único planeta que temos para viver.