É muito comum na vida política, sobretudo em partidos que fazem oposição intransigente ao governo da vez, o exercício da crítica pela crítica, sem outro objetivo que o de criar um clima permanentemente desfavorável a quem está no poder e procurar tirar ouro desse nariz, como diria o poeta Drummond.

Exemplo: numa dessas audiências parlamentares convocadas pela oposição, um ministro de Estado elencou, durante uns bons minutos, as obras por ele inauguradas no último ano. Um militante da chamada “terceira via”, nova frente de oposição ao governo que oferece o liberal-progressismo como alternativa ao que classifica de “conservadorismo fascista” do atual presidente da República, sem poder deixar de admitir as realizações elencadas pelo ministro, encontrou enfim algo em sua fala passível de avaliação desfavorável: ao final da exposição, disse que “nunca, na história desse país, se fez tanto quanto nós do governo estamos fazendo”.

Encontrar defeitos na situação é o esporte preferido da oposição. A partir desse mote, o militante liberal-progressista disparou num longo comentário, ácido e ferino, sobre os velhos métodos de fazer política. As obras realizadas, razão pela qual o ministro estava ali para delas prestar contas, já não contavam mais.

O crítico do ministro bem sabia que, quando um político diz que “nunca, na história desse país, se fez tanto quanto nós do governo estamos fazendo”, está apenas usando a figura de retórica mais usada por sua classe: a hipérbole, exagero verbal para enfatizar alguma coisa que possivelmente ocorreu, porém jamais na escala em que foi expressa. Como também sabia que se trata da mesma lógica — a lógica do gogó — que, no fundo, preside o mundo da publicidade, em que, p. ex., o carro X é apresentado como o melhor de sua categoria, sem que o seja objetivamente. Já ninguém mais liga para essas coisas, que foram assimiladas como parte da normalidade das duas áreas, embora, obviamente, haja um problema moral nisto tudo.

O militante liberal-progressista sempre soube que a maioria dos políticos vive de garganteio, da esquerda à direita, passando pelo centro, pertençam eles a partidos velhos de quinhentos anos, ou a novos de poucos meses. Quem acompanha a vida política sabe disto e busca discernir, no discurso de palanque, o que é jogo de expressão e atos de governo. Mesmo sem perder de vista a fita métrica moral, é por estes últimos que o parlamentar ou o chefe do executivo devem ser julgados, não pela máscara retórica que utilizem aqui e ali.

O político é mais um peixeiro atrás de vender seu peixe. A retórica verbal é tão importante, para ele, quanto a faca para o açougueiro. Não ganha eleitores com estudos randomizados, multicêntricos, com duplo-cego e controlado por placebo. Não convém esperar, dessa classe, que se apresente em público como um cientista ou filósofo ciosos da relação de causa e efeito. O propósito do discurso político, mais do que expor um conteúdo objetivo e factual, é convencer o eleitorado de que o seu autor faz e acontece, promete e cumpre. É, antes de tudo, um homem de ação.

Muitos ainda se lembram de quando Fernando Henrique Cardoso, que há décadas já falava da tal “terceira via”, entrou na vida pública ostentando a sua condição de cientista social, o que fez muita gente acreditar que, a partir de seu exemplo, o discurso retórico daria espaço à objetividade científica e um novo tipo de homem público começaria a dominar a cena política.

“Mudaria o Natal ou mudei eu?”, pergunta Machado de Assis no fecho do famoso soneto. FHC mudou a política ou a política mudou FHC? Todos os daquela época vimos o que ocorreu. Não demorou muito para o senador, e mais tarde presidente da República, aprender todos os truques verbais da sua nova classe, depressa empregados com finura de gentleman e esperteza de macaco velho. Quem dominou o picadeiro político por dois mandatos não foi o sociólogo da USP, mas um político habilíssimo nos pensamentos, palavras, atos e omissões.

Essa habilidade de prestidigitador político conta com um bom arsenal de armas retóricas. Afinal, não só de hipérboles vive a língua solta desses cidadãos: outra figura muito utilizada, no bate-boca dos parlamentos, é a apóstrofe, interpelação direta de alguém presente ou ausente, visando a encenação de um confronto imaginário. Ou ainda, nesta mesma linha, a técnica das interrogações sucessivas e obstinadas, com a qual se espera tudo, menos respostas. Do pleonasmo nenhum político escapa: todos são mestres em palavras desnecessárias.

Quando os políticos eram mais lidos e cultos, recheavam seus discursos com outras figuras. Eram hábeis nas comparações e metáforas, tiravam bons efeitos das inversões metonímicas, sabiam dosar a intensidade da voz em função das ideias e fatos que exprimiam.

Dessa floração retórica é inevitável passar-se a outro terreno, ainda na região das palavras e da linguagem, algumas vezes até contíguo, onde prospera outro tipo de vegetação: o das grandes mentiras, das calúnias, das acusações infundadas, que caracterizam não poucas vezes a própria linha de atuação de alguns partidos, especialmente de esquerda. Uma linha de ação que não pode aparecer expressamente nos programas partidários registrados no TSE, mas que constitui a sua verdadeira natureza, pois são essenciais para a corrosão da ordem vigente. É também à linguagem que se recorre para esses fins.

Podem as palavras trabalhar para muitos senhores. Cabe ao falante da língua escolher de que lado ficará e a qual senhor servir.