Sabemos que, na crônica, o assunto é tão importante quanto a maneira de tratá-lo. O que a distingue do jornalismo puro é o estilo, que, segundo célebre aforismo, é o próprio homem. Pode até ser uma negação do jornalismo, na sua insistência pessoal, mais ou menos divagatória, em temas aparentemente sem importância, contra a necessária e objetiva ênfase que o primeiro dá ao acontecimento que pode fazer história.

Machado de Assis comparou o cronista, um tanto parnasianamente, ao beija-flor. Como ele, “salta, esvoaça, brinca, tremula, paira e espaneja-se sobre todos os caules suculentos, sobre todas as seivas vigorosas. Todo o mundo lhe pertence”. Todo o mundo e ninguém, pois o cronista, em geral, costuma ser um cético em relação às coisas deste mundo: evita tomar partido, pois sabe que todas as vitórias do aqui e agora são passageiras.

O fato da crônica ser um texto nascido em jornal já lhe impõe certos limites de berço e de estilo, que o poeta ou o contista, seus vizinhos, não precisam obedecer. Não é, portanto, um gênero literário puro, mas irrevogavelmente vira-lata, como o memorialismo, o aforismo e certo tipo de ensaio, aos quais ele próprio sempre pede emprestada alguma coisa, do mesmo modo que, vampírico por natureza, vive também de sugar o sangue dos gêneros propriamente literários, como o conto e o poema em prosa.

A crônica, no fundo, parece fazer parte de uma estratégia de amenização, ou uma técnica de respiração literária, para evitar a asfixia e quebrar a monótona seriedade imposta por todas aquelas matérias, exageradamente presas à realidade, das quais está cercada no “ambiente” jornalístico e com quem nunca se entendeu muito bem.

A crônica é uma janela aberta para o mundo, mas sempre de vidraças fechadas: o cronista autodelega-se o poder de escolher à vontade a forma e a cor do vidro pelo qual filtra a realidade.