O jornalista Michael S. Rose, católico americano, em 2001 publicou uma obra que deve interessar a todos os que se preocupam com a arquitetura de nossas igrejas: intitula-se Ugly as sin (“Feio como o pecado”), ainda sem tradução para o português. O autor, neste livro, procurou investigar as razões pelas quais os templos católicos, por ação das novas concepções arquitetônicas impostas ao longo da segunda metade do século XX, se transformaram de lugares sagrados em meros espaços de encontro comunitário — feios, banais, pouco inspiradores —, rompendo com uma tradição multissecular de igrejas verdadeiramente com cara de igreja, facilmente reconhecíveis pelos fiéis.

O autor não crê que essa mudança seja só uma questão de gosto: algo mais importante estaria em jogo. Ninguém poderia dizê-lo melhor do que um arquiteto moderno de igrejas, como o luterano Edward A. Sovik, para o qual “a arquitetura é um fator influente na vida social, e até mais do que a maioria das pessoas pode supor.”  

Michael S. Rose defende que a arquitetura de uma igreja afeta a maneira como os fiéis prestam culto a Deus; a maneira como eles prestam culto afeta o conteúdo de sua fé; e o modo como eles creem afeta não apenas seu relacionamento pessoal com Deus, mas a maneira como se comportam em sua vida diária.

Assim, a preocupação com a forma das igrejas não é uma simples questão estética ou uma disputa de gostos: é algo que envolve a fé e, portanto, o destino eterno das pessoas. A arte religiosa nunca é pura, pois entrelaça-se visceralmente com a doutrina, os dogmas, os sacramentos, a oração, a vida moral. Um templo protestante, projetado para a pregação bíblica, a oração comunitária, a louvação e o batismo, haverá de ser obrigatoriamente distinto de um templo católico, projetado principalmente para a Missa, que é a celebração do Santo Sacrifício de Cristo. Se, numa Missa, o pão se transubstancia real e verdadeiramente em corpo, sangue, alma e divindade de Cristo, e depois é oferecido sacramentalmente ao Pai, o espaço em que tal acontecimento ocorre não poderia ser um espaço qualquer.

Cada elemento e cada detalhe, num templo católico, possuíam um significado que se integrava num conjunto maior de significados, um universo que coincidia com a própria História da Salvação. Para o autor de Feio como o pecado, seriam três as leis que presidiam a construção de uma autêntica igreja católica: verticalidade, permanência e iconografia.

Verticalidade: o espaço arquitetônico deve abrir-se para o alto, elevar as almas, sugerir a transcendência divina. Permanência: a construção, que aponta obrigatoriamente para a eternidade, deve ter a solidez das coisas fundadas na rocha e desafiar o próprio tempo; deve ser feita para durar, como até hoje duram certas catedrais medievais. Iconografia: tudo, no ambiente cristão, deve remeter visualmente à doutrina, aos dogmas, aos sacramentos, à oração, à vida moral, enfim, à fé tal como deve ser vivida no dia a dia.

Ora, as igrejas construídas segundo os padrões modernos rompem radicalmente com essas três leis, humildemente respeitadas pelos séculos que nos precederam. E não há só desprezo por elas: muitas vezes, o que se tem visto, nas últimas décadas, é a intenção de confrontá-las, eliminando dos tempos a dimensão da verticalidade, da permanência e do ensino iconográfico. Mais ainda: procurando introduzir o feio e o abjeto da arte moderna no ambiente sagrado, criando uma “Uma nova forma de blasfêmia: a blasfêmia com pedra e cimento”, como disse certa vez Alice von Hildebrand, mulher do filósofo católico Dietrich von Hildebrand.

De Michael S. Rose, que hoje vive em Cincinatti, Ohio, com a esposa e os quatro filhos, a editora Ecclesiae publicou no Brasil a obra Adeus, Homens de Deus. Como Corromperam a Igreja Católica nos EUA, sobre a barreira que bons candidatos ao sacerdócio encontram nos seminários, pelo fato de serem contrários ao progressismo dominante na Igreja atual.