O arquiteto Oscar Niemeyer “bateu as botas” com cento e quatro anos. Autoproclamava-se um revoltado, e assim morreu em 2012: comunista com muito orgulho.

De formação católica, criado por avós muito religiosos que até mandavam celebrar missa em casa — havia uma capelinha no lar dos Niemeyer —, um dia perdeu a fé e livrou-se dos valores do cristianismo que considerava mais incompatíveis com a mentalidade moderna, conservando, no entanto, a solidariedade, única justificativa, segundo ele, para uma vida tão rápida e injusta, em que o ser humano estaria completamente abandonado. Era um gnóstico sem religiosidade.

Niemeyer não sabia, porém, se o mais importante fosse insistir na insignificância do homem, pequeno demais ante a grandeza do universo, ou espantar-se com a fantástica inteligência humana, capaz de tanta ciência e tanta arte, dono de uma admirável imprevisibilidade.

Viveu toda a vida  como joguete dessa vertiginosa oscilação entre a sordidez (detestava dinheiro, ainda que trabalhasse para ricos) e o maravilhoso (gostemos ou não do seu estilo, era um artista), sem perceber o nexo sutil que unia as duas pontas da existência — uma das funções da arte, talvez a mais sublime, é lutar contra as trevas —, acreditando infantilmente que o comunismo pudesse eliminar a primeira (a sordidez humana) e instaurar o reinado definitivo do segundo (o maravilhoso).

Deus o amava tanto, que lhe deu cento e quatro longos anos, na esperança de que se convertesse e voltasse ao Cristo da infância, o Cristo da capelinha doméstica da casa dos avós, para o qual o amor ao próximo era umbilicalmente dependente do amor de Deus, sendo impossível uma solidariedade entre homens que não tivesse por fundamento a vontade revelada do Criador.

Contudo, esse homem centenário continuava gnosticamente revoltado, empenhado em substituir o Deus verdadeiro por um deus ideologicamente construído. Um de seus últimos projetos, elaborado alguns anos antes da grande viagem que faria à eternidade, foi uma obra “religiosa”: a capela de Santa Clara, inaugurada, em 2008, como parte das comemorações do centenário do arquiteto. Foi construída numa fazenda de propriedade de outro famoso gnóstico, o liberal progressista Roberto Irineu Marinho, presidente da Rede Globo — que aliás ganhou de presente o projeto (os gnósticos se entendem muito bem) —, e situa-se na Serra da Mantiqueira, a 1.350 metros de altitude, próximo à mineira Poços de Caldas, na mesma Minas Gerais que ostenta a mais valiosa coleção de capelas e igrejas do período barroco.

Já virou ponto turístico. Um sacerdote ali vem, uma vez por mês, partilhar com os empregados da fazenda a palavra de Deus e o pão eucarístico no banquete comunitário, como costuma ser definida atualmente a Missa católica. Mas como celebrar o santo sacrifício de Cristo — que é como a Igreja sempre definiu esse sacramento — no espaço desenhado pelo arquiteto Niemeyer?

Lembrando mais um disco-voador pousado no topo de uma colina, o interior da capela é totalmente branco, certamente sugerido pelo nome da santa à qual é dedicada a obra. Ao fundo, num plano discretamente superior ao resto do ambiente, há uma mesa de madeira coberta pela habitual toalha branca, que funciona como altar (um altar moderno, pós-Vaticano II). A parede ovalada, atrás, é toda decorada com um desenho sumariamente “primitivista” (também do arquiteto) em que uma pessoa contempla o universo. Entre os rabiscos que sugerem astros, uma cruz que mais lembra um sinal de adição; é o único indício, na capela, da Paixão de Cristo. A única imagem sacra é a de Santa Clara, e os bancos não têm genuflexório.

É, sem dúvida, um ambiente simpático e agradável para o descanso de turistas montanheses, mas não para celebrar o sacrifício redentor de Cristo. Funciona mais como posto de observação da paisagem, com seus morros ao longe e o cafezal da fazenda no pé da serra. O lugar parece conter todos os ingredientes para se transformar em centro de peregrinação panteísta. Pense-se nas palavras do próprio arquiteto, gravada atrás da porta de entrada, explicando o desenho: “Trata-se de um homem a olhar, surpreso, este universo fantástico que nos cerca. Neste, uma cruz se destaca a lembrar, aos que chegam, a ideia de Deus que tudo criou”. O teólogo revisionista Niemeyer, com a sem-cerimônia própria dos gnósticos, ousou eliminar da cruz o sentido sacrificial.

Um dos sonhos do comunismo, e das demais ideologias ditas progressistas, é a substituição do Deus que se fez homem pelo homem que quer ser deus. De certo modo, essa troca se deu muito naturalmente naquele belo lugar da Serra da Mantiqueira, criado por Deus (que os liberais progressistas da maçonaria preferem chamar de “grande arquiteto do universo”), mas cuja beleza foi agora aperfeiçoada pela criação de outro arquiteto, aperfeiçoador das incompletudes divinas: inicialmente batizada de “capelinha de Santa Clara”, hoje é mais conhecida como “capelinha do Niemeyer”. É para ali que os turistas se dirigem para, se quiserem, “adorar” um dos gênios da arquitetura moderna, que como marxista-hegeliano acreditava que o papel da humanidade fosse o de levar Deus à sua plenitude.

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