Se forem corretas as idéias aqui expostas, em artigos anteriores, seremos levados a concluir que a crise fundamental do mundo contemporâneo, essa crise que abala os alicerces da sociedade — e tanto da sociedade das famílias quanto da sociedade das nações — não é predominantemente política, nem econômica, nem, tampouco, puramente ética, tal como algumas vezes se supõe: é, sim, essencialmente filosófica. Nossa grande culpa, que estamos purgando severamente, foi ter acreditado e é seguir acreditando na sabedoria do primum vivere, que, já tendo prestado serviços relevantes, não é mais solução, antes pelo contrário. Hoje, o recomendável, o necessário, é primum philosophari. Filosofar para viver, pois que, ou filosofamos, primeiro, ou iremos chafurdar na bagunça e nos desintegraremos no caos.

Esse é o destino que nos ameaça. A profunda crise que atravessamos, de âmbito universal, indica o início da desintegração a que estaremos condenados, por nos recusarmos à filosofia. A crise alastra-se por todos os planos e domínios das nossas atividades. É política, econômica, moral, cultural. Destruiremos ou deixaremos destruir-se o que existe, sem saber o que reconstruir, nem como reconstruir alguma coisa, no lugar vazio. Nada resistirá à avalanche. E, dado que ao cataclismo ainda sobrevivam restos de uma pobre humanidade sem rumo, decaída da sua condição de grandeza, será preciso recomeçar do princípio, como após o dilúvio.

Recomeçar implica uma tomada de posição, em face do mundo e da vida. Implica uma filosofia. Filosofar, primeiro, para alcançar uma razão de viver. Sem fundações filosóficas, toda construção com esse objetivo sempre desmoronará.

Nunca havia sucedido ao espírito humano deixar-se ficar ao abandono, em total, angustioso, vertiginoso desamparo, que é como o de um cosmonauta perdido. Não se trata, sequer, de uma queda, que segue uma lei e um sentido. Nem é, propriamente, morrer. É um modo indizível de aniquilamento. Nunca nos acontecerá nada de semelhante, porque sempre filosofamos, desde que somos gente, em todas as idades. Pouco importa que as primeiras atitudes filosóficas fossem tão diferentes da verdade filosófica, quanto os vagidos de um recém-nascido diferem de um poema de Mallarmé. O fato é que elas existiam e dominavam a vida, conferindo-lhe o que hoje lhe falta, ou parece faltar: um sentido, um sentido qualquer.

O problema não era tão terrível assim, enquanto as crises do espírito se desenrolavam em torno da preferência concedida a determinado sentido, que, em vez de outro, se deveria atribuir à vida. Podiam hostilizar-se, entredevorar-se, odientos, os partidários das diversas soluções. Mas, todos tinham uma solução, tinham o que propor, pois filosofavam. Destruir o teu, para reconstruir meu mundo, ou vice-versa, é um conflito positivo, uma exaltação, uma briga. Não é uma crise desesperada. Nem tudo está perdido, enquanto cada um se julga senhor da verdade e supõe saber como se deve agir.

Hoje, o que se destrói é um mundo sem sucedâneo à vista, é um mundo que se diria exausto, esgotado em seu poder de renovação. Não se trata, porém, de um inexorável processo de decrepitude. O caso é, antes, de carência, uma espécie de avitaminose mortal, do tipo do escorbuto, que se cura com laranjas, o que não impediu a moléstia de dizimar exércitos e populações, ao tempo em que não era conhecida a etiologia da tão temida “peste”. Mal comparando, o mundo contemporâneo deixa-se dizimar por essa crise da peste, que, ela também, não passa de um caso de carência — a carência de filosofar.

O que fazemos é debater-nos em vão de encontro aos problemas que nos angustiam, como os enclausurados que se arrebentam contra muros e grades; debatemo-nos, sem perceber o essencial: que a vida não dá pé sem alguma filosofia. A empostação filosófica é que anima e dá sentido aos nossos problemas, permitindo, para começar, que sejam colocados corretamente e encaminhando soluções para a sucessão dos seus desafios. A filosofia é como que o ar que toda a nossa problemática respira. Filosofemos, pois, se ainda quisermos encontrar a saída que existe, deve existir, tem que existir, uma vez que não mudou a essência das coisas. Não nos deixemos perecer, indefesos, nesse brejo das almas, em que se converte o mundo, sem a dose filosófica da manutenção. Filosofemos, amigos, que, do brejo, além de safar a vaca, veremos surgir uma flor.

(O Estado de São Paulo – 05/07/1969)