[Nesta pregação radiofônica, o Bispo “sertanês” da diocese goiana de Formosa, Dom Adair José Guimarães, toca num problema fundamental do homem de hoje, a debilidade de caráter, que o deixou em pânico e o colocou de joelhos diante do vírus chinês. Dom Adair mostra o caminho para a recuperação da fortaleza perdida].

Tempos atrás, eu tive uma conversa longa, uma partilha com uma médica pediatra renomada, uma pessoa de grande bom senso, cristã, profunda mulher de Deus, que faz da medicina um grande trabalho de colaboração com a melhoria do gênero humano (ela que, como pediatra, lida com as crianças, com os pais).

A gente partilhava sobre aspectos da vida humana de hoje, sobre a fragilidade do ser humano dos nossos tempos: nós vivemos uma fraqueza humana generalizada nos nossos tempos, as pessoas perderam o rumo da firmeza, perderam esta capacidade de edificar o seu caráter com a fortaleza divina. As pessoas estão muito sensíveis, muito fragilizadas e muito superficiais. A superficialidade vai tomando conta das pessoas, criam essa mentalidade de que precisam ser agradadas. Você tem que agradar as pessoas.

Nós precisamos mudar esse ritmo nosso, entender que nós é que precisamos agradar a Deus. Não podemos ser essas pessoas que buscam consolação em tudo. Você vai à Missa e o padre não pode pregar sobre o pecado, sobre o adultério, sobre a preguiça, sobre os vícios, porque as pessoas se sentem machucadas. “Ah porque pregou contra mim…” As pessoas estão cheias, carregadas de pecados e não querem escutar a verdade. O problema hoje, na igreja, é que as pessoas não querem escutar a verdade.

E um problema também duro para nós, sacerdotes, é que nós temos medo de dizer a verdade, porque hoje tudo é o politicamente correto. Você não pode pregar contra o aborto, porque você fere quem fez aborto, você condena quem fez aborto… Hoje é horrível: você está atendendo confissão, vai dar um direcionamento à pessoa, e a pessoa diz: “O senhor está me ofendendo…”, porque perdemos o rumo, nós perdemos a consciência do pecado e nos tornamos um povo frágil. Filhos que não são corrigidos… Filhos que não aceitam a correção dos pais, porque os pais perderam a sua autoridade. Famílias fragilizadas, famílias que não têm mais a solidez daqueles esteios de valores que tão bem faz à família.

Nós somos um povo fragilizado. Nós estamos perdendo a consciência das nossas responsabilidades. Hoje se fala de Deus, do amor de Deus, mas a sua vontade não pode ser corrigida, as suas inclinações não podem ser corrigidas. A pessoa tem que fazer o que quer, a criança tem que fazer o que quer. As crianças todas encegueiradas em jogos que já têm toda uma mensagem subliminar da Nova Ordem Mundial, que vão destruindo os valores. A mãe e o pai não sabem mais o que fazer com os filhos, porque não podem corrigir, porque a psicologia disse não pode corrigir: tem que deixar a pessoa ser livre…

Uma coisa é você educar para a liberdade responsável (se Jesus te libertar, serás verdadeiramente livre), e outra coisa é evitar de corrigir em cima desse politicamente correto, e deixar as crianças, os nossos filhos, assumirem um conceito de liberdade que é o de fazer o que se quer: “Se me agrada, eu tenho o direito de fazer…”

Nem tudo o que nos agrada nos é conveniente. Nós, sacerdotes, sabemos disso. A gente precisa lutar contra nós mesmos. “Vincit qui se vincit”: vence quem se vence. Vencer as inclinações, vencer as tendências, vencer uma liberdade corroída pela mentira, pela falsidade, pelo egoísmo, por tantas misérias que esse mundo vai colocando; esse desrespeito à dignidade da pessoa humana; esse conceito errado de que você é feliz fazendo o que você quer.

Não é assim. Você precisa examinar os espíritos, ter o discernimento: “O que faço agrada a quem? A mim, ao demônio ou a Deus? Portanto, São José é um modelo de um homem íntegro, resolvido profundamente, livre porque a sua vida é calcada em cima dos valores inalienáveis, que dão sustentação a uma existência feliz, por viver a felicidade a partir da prática das virtudes, no olhar direto para o bem e não para os desejos, as fragilidades da carne e para a escuridão deste mundo. Sejamos firmes, assim como foi São José, pai adotivo de Jesus.

(…) “Uma árvore boa não pode dar frutos maus, nem uma árvore má pode produzir frutos bons. Toda árvore que não dá bons frutos é cortada e jogada no fogo. Portanto, pelos seus frutos vós os conhecereis”. (Mateus 7, 15-20).

Aqui, Nosso Senhor fala da necessidade da correção, a correção fraterna. Nós existimos para ser corrigidos: todos nós. O diretor espiritual nos corrige, nossos superiores nos corrigem, porque a nossa vontade nem sempre atende à objetividade da verdade. Uma vontade corroída pelo pecado: nós já nascemos com influência do pecado. O batismo tirou o pecado original da nossa vida, mas não tirou a concupiscência, as tendências errôneas que o pecado das origens introduziu no coração da pessoa humana, sobretudo o orgulho, que está dentro do meu coração, que está dentro do seu coração, não importa quem você seja: seja o rei, seja o príncipe, seja quem for. O coração da pessoa humana é eivado pela concupiscência.

Por isso, nós precisamos fazer penitência, fazer jejum. Precisamos orar. Precisamos nos resignar. Precisamos nos confessar, arrepender dos pecados, aceitar a correção, aceitar ser modulados no caminho da “eudemonia”, de uma felicidade que se constrói a partir da prática das virtudes (primeiro, as virtudes teologais, que nos inserem nesta comunhão profunda com o mistério de Deus, numa amizade que a gente vai construindo, a partir de dentro, com Cristo nosso esposo; depois, as virtudes morais, que nos adequam ao comportamento de Cristo).

A nossa sociedade está apodrecida no pecado. É uma tristeza o que nós vivemos em nossos dias: você não pode falar do pecado, você não pode pregar sobre essas verdades eternas, porque isso é coisa de conservador, é coisa do passado. Você tem que usar mais a metodologia da psicologia: a pessoa precisa ser agradada… A Missa é para agradar às pessoas… Tudo que a gente faz na Igreja é para agradar as pessoas e não a Deus, porque nós queremos ser .agradados.

Nós, padres, infelizmente temos isso: a gente quer ser agradada, a gente não está disposta a agradar a Deus, na solidão na renúncia, nas provações. Basta vir uma provação, basta vir uma morte, basta vir uma dificuldade, que a gente desaba, porque o caráter não foi bem edificado, as virtudes não foram bem solidificadas dentro do coração.

Abra seu coração, prezado ouvinte, à correção. Deixa o seu diretor espiritual te corrigir. Aceite a correção da palavra de Deus. Aceite as moções do Espírito Santo no seu coração, a intercessão de São José, para que a sua vida seja profundamente humanizada em Cristo e não no seu querer, não na sua vaidade. E, para completar, a gente precisa pensar naquilo que resume toda a nossa vida. que deve nos tirar do calabouço do orgulho, da vaidade, e nos inserir no trilheiro estreito da humildade: o mistério da morte. A morte é o resumo de tudo. Olhando para ela, nós devemos aceitar as podas, as correções e mudar de vida. Ter uma vida de acordo com Nosso Senhor. Devemos ser livres e fiéis em Cristo. Amém!

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