[O historiador francês Patrick Buisson acaba de lançar a obra La Fin d’un monde: Une histoire de la révolution petite-bourgeoise (O fim de um mundo: Uma história da revolução pequeno-burguesa). O mundo que, segundo o autor, chega ao fim, é aquele construído por dois mil anos de cristianismo, com suas raízes e sua cultura. Para o autor, o proletário dos tempos modernos não é aquele a quem falta o pão, mas o que está privado de suas raízes e de sua cultura. Por que esse mundo foi destruído? Por quem? Adianta algumas respostas o próprio autor, em entrevista que concedeu ao site católico francês Le salon beige].

O que foi destruído é a religião popular, responsável pela hibridização de catolicismo e paganismo. Como escreve o historiador Emmanuel Leroy Ladurie, querer despaganizar totalmente o cristianismo é correr o risco de pôr tudo a perder, atacando a própria substância religiosa da humanidade.

Ora, o novo clero, filho da pequena burguesia, que cortou todas as raízes com a terra e está mergulhado nos valores urbanos, professava o maior desprezo por uma religião que havia inculturado a fé através da festa, e cuja principal característica era o apego às funções rituais do culto.

Defendendo uma fé inteiramente polarizada pela racionalidade e ansiosos por torná-la aceitável e inteligível pelos contemporâneos através do raciocínio, esses novos clérigos nunca deixaram de lutar contra essa religião popular que, segundo eles, dava demasiada importância ao maravilhoso, ao sentimento e às forças instintivas do sensorial, que fez do catolicismo uma religião do tangível e do sensível, com seus cantos, música, procissões, ornamentos, o primado do gesto sobre a palavra.

É esse legado que deve ser novamente buscado, se [o catolicismo] quiser crescer como um dom da Providência, em vez de ser arrancado como a grama e a erva daninha. Ninguém mais do que o clero progressista — que fez da solidariedade para com o proletariado um dever da Igreja — terá contribuído para a proletarização das pessoas comuns, despojando-as de seus hábitos e costumes, de suas festas e seus rituais.

Quero crer que o proletário dos tempos modernos não é aquele a quem falta o pão, mas o que está privado de suas raízes e de sua cultura. Esta escolha deliberada de uma fé des-ritualizada teve muito a ver com o processo de decadência histórica da Igreja. Insistia-se em ignorar o fato de que o rito estava inscrito no genótipo do ser humano e que, para a maioria, não era a fé que conduzia ao rito, mas o rito que abria caminho para a fé. Ignorava-se também que o cristianismo havia sido construído, na França, não apenas sobre bases teológicas, mas na forma de uma poderosa religião popular; acreditava-se que, dessacralizando-o a partir de uma Igreja mais elitista, ele estaria mais em acordo com a mensagem evangélica e paulina, mas obrigatoriamente se cortariam os vínculos, de um só golpe, com tudo o que historicamente tinha sido a sua força.

Foi exatamente o que aconteceu; e o povo refluiu, abandonando as igrejas para fugir da dominação opressora do clericalismo pós-conciliar, empenhado em destruir a mediação da sacralidade, ao mesmo tempo em que bania a devoção dos humildes, julgando-a imprópria ou supersticiosa.

(…) O empreendimento progressista consistia em desmitologizar e desmitificar a velha e, até então, imutável escatologia católica, a ponto de esvaziá-la gradualmente de parte de sua substância. Mostro, em particular, como uma série de dogmas foram sendo ocultados ou literalmente esvaziados: os fins últimos, o paraíso, o inferno, a ressurreição dos corpos, o pecado original etc.

Quanto às suas funções sociais, a Igreja, ao longo de vinte séculos de história, mostrou a sua extraordinária capacidade de criar vínculos, de fazer o que é próprio de uma religião. Religião é religare. Ela religa. Todas aquelas atividades e obras que pareciam tomar muito tempo, davam-lhe uma influência e um raio de ação que nenhuma instituição poderia se orgulhar de ter igual.

E agora, quando as organizações seculares — com o Partido Comunista na liderança — tomaram emprestado do catolicismo a receita de sua sólida sociabilidade (que acompanhava os indivíduos do berço ao túmulo), a Igreja, como escreveu à época o jornalista Georges Suffert, “abandonou, passivamente, o terreno, sobre o qual tinha avançado por um bom milênio, e se curvou diante dos novos deuses como um cão diante de seu dono”.

Pois era, de fato, o mais desconcertante, e o mais enigmático dos paradoxos daqueles anos, ver o clero progressista, sob o pretexto de trabalhar “com as mãos na massa”, gradualmente retirar-se de todas as funções sociais que, desde sempre, o colocava em contato diário com todas as esferas da vida, das mais privilegiadas às mais modestas, sem exceção.

De facto, foram as estruturas e os mecanismos de transmissão da fé que foram destruídos no espaço de uma década [entre 1960 e 1975], em nome de uma arriscada estratégia de “presença no mundo” que, em última análise, não era mais do que um pretexto para se afastar do povo. A árvore é julgada por seus frutos, segundo o Evangelho, e o julgamento da história sobre esse ponto foi cruel.

(…) O Vaticano II foi uma oportunidade perdida (…).Se ele tivesse posto a revolução, como escreveu Maurice Clavel, a serviço da fé e da tradição, rejeitado no mesmo movimento esses dois materialismos letais, que eram o consumismo e o socialismo, a Igreja teria então assumido a liderança da verdade e sido responsável pela grande rebelião cultural de que o Ocidente precisava.

Um exemplo, entre muitos outros: por cruel ironia da história, a Igreja renunciou à prática das Rogações no momento mesmo em que poderia, mantendo sua tradição, revitalizar seu vínculo com o mundo, aparecendo a todos como a vanguarda da nova sensibilidade de proteção da natureza (que começava a se apoderar dos espíritos). No exato momento em que a onda da ecologia estava começando a se formar, bastava unir todo o seu brilho e toda a sua juventude à promessa eterna do Livro do Gênesis: “Enquanto durar a terra, não mais cessarão a sementeira e a colheita, o frio e o calor, o verão e o inverno, o dia e a noite”. ”(Gênesis, 8, 22).