A Igreja alemã continua desafiando o Vaticano. Está previsto para o próximo 10 de maio um protesto de padres — com a permissão dos seus bispos — contra o documento da Congregação para a Doutrina da Fé que proíbe a bênção dos casais homossexuais. Para melhor divulgação do evento, o protesto conta até com uma página na internet, na qual estão convidados a inscrever-se mais padres que desejam incluir as suas paróquias na cerimónia.

É certo que se trata de uma minoria de heréticos: das dez mil paróquias católicas da Alemanha, até agora só quatorze aderiram à iniciativa (0,1% das paróquias alemãs). É esperar para ver quantas mais irão se envolver na brincadeira. Apesar, porém, de numericamente reduzida, a revolta promete ser barulhenta. Por exemplo, a paróquia de São Martin, na diocese de Münster, garante que a cerimónia — na qual não faltará, obviamente, o surreal beijo gay dos “noivos” — será filmada e amplamente divulgada na internet.

Segundo o padre espanhol Santiago Martín, que tem observado há já um bom tempo o “cisma alemão”, os promotores do acontecimento querem deixar bem claro ao Vaticano que as suas normas são letra morta, sem autoridade para impor o que quer que seja. Estão convictos de que não haverá consequências, ainda mais porque seus próprios bispos já se apressaram a dizer que não castigarão os párocos responsáveis (entre os bispos coniventes está o da diocese de Essen, Franz-Josef Overbeck, à esquerda na foto acima, portando uma ecologicamente sustentável corrente de cenouras).

Padre Santiago antecipa um cenário complicado pela frente: “…se o Vaticano não reagir com algum tipo de sanção, o escândalo será imenso e muitos católicos sentir-se-ão muito feridos nas suas convicções; além disso, serão apresentados argumentos àqueles que dizem que há duas medidas diferentes: uma muito dura para os conservadores e outra totalmente tolerante para os liberais, mais conhecidos como Catho-Protestantes. Mas se o Vaticano reagir e impor algum tipo de sanção, a imagem do Papa será grandemente afetada precisamente entre os setores eclesiais e sociais que mais o apoiaram desde que ele chegou ao Pontificado.”

Enfim, Papa Bergoglio está numa verdadeira saia justa (ou batina justa, se se preferir). É um desafio direto ao Sumo Pontífice. Faça ele o que fizer, o desgaste será grande, seja para um lado ou para o outro. Padre Santiago fala em grave fratura na unidade da Igreja, se a autoridade do Papa for questionada publicamente sem maiores consequências. “Uma cisão é uma tragédia que deve ser evitada, mas a unidade não pode ser mantida a qualquer preço. Se esse tivesse sido o critério, teríamos de ceder aos Arianos (que negaram a divindade de Cristo), a Lutero, a Calvino ou a qualquer das heresias que já quebraram em mais de mil pedaços a única Igreja de Cristo”.