Caminhou quarenta anos no deserto, à procura de Deus, quando de repente, como Santo Agostinho, descobriu que Deus desde sempre estivera em sua alma, à espera de ser reconhecido e adorado. É certo que nunca faltaram avisos de Sua presença misericordiosa, como uma espécie de fagulha que saltava da própria alma e logo desaparecia no vazio interior. Voltava, outra vez, a noite escura, mas, sem que o soubesse, o Senhor estava ali, em sua alma distraída pelas coisas mais imediatas, enquanto os pés se afundavam na areia interminável do Saara existencial que ele tinha escolhido por sua livre vontade e prejuízo.

Todo deserto tem oásis, o que dá ao peregrino a impressão de que não está mais no deserto. Como o velho Zorba nietzschiano (personagem do romance homônimo, do escritor grego contemporâneo Kanzantzakis), nosso personagem saltava exultante quando encontrava algum jardim de Epicuro, com sombra e água fresca, em meio à aridez do areal interminável: uma companheira para brincadeiras sexuais, conforto material, saúde física e, no seu caso, a ilusão da ciência e das artes. Eram boas distrações para o corpo e a inteligência, nos quais pusera toda a sua provisória esperança de homem sem Deus, que também tinha lá a sua fé: a crença na morte da alma após a ruína do corpo.

Não havia, no entanto, escapatória: se fugia de Deus, Ele o acompanhava incessantemente na fuga, disparando aqui e ali as rápidas fagulhas da Graça, pois Ele cuida indiferentemente dos bons e dos maus. Na cega caminhada do deserto, uma dessas fagulhas divinas era certa ideia de Pascal, que sempre o inquietou: se pela matéria o universo o envolvia, pelo espírito o grande universo se deixava envolver e pensar por ele, “bicho da terra tão pequeno”. Ou esta outra ideia de Leibniz, ainda mais excitante: por que existe o ser, em vez do nada?

Deus, que nunca saiu de dentro dele e parecia não ter nenhuma pressa de ser encontrado, impedia no entanto o caos interior com Sua presença: embora surdo à voz da transcendência, parecia mover-se relativamente em paz entre as coisas e os demais habitantes do deserto.

Hoje, sabe que a mão de Deus, no deserto, se manifestava sobretudo no oásis da família, embora fosse um sinal que não conseguisse interpretar em sua plenitude, talvez por estar inteiramente imerso naquele mistério. O Deus Trindade, família trina e una, havia feito dele uma planta (“plantas sois e caminheira”, Gil Vicente) brotada de uma família, de um seio familiar mais ou menos ferido, pobre família humana bombardeada por todos os canhões da modernidade, mas que tinha a Trindade divina como modelo permanente e inatingível. Todos nasciam de uma família, mesmo os piores monstros morais da humanidade.  

Eis que, um dia, as escamas dos olhos finalmente caíram e Deus se deixou “ver”. O deserto havia ficado para trás. Descobriu que a vida tinha um sentido, e a certeza de que Deus está — sempre esteve — dentro de sua alma teimosa de cético iludido por algumas ideias de brinquedo. Deus o mantivera no ser durante toda a travessia do deserto, impedindo que sua minúscula carcaça desaparecesse na voragem da não existência.

Paradoxo dos paradoxos: descobriu que Deus estava nele, e ele em Deus, que em Deus se movimentava e em Deus existia, como já havia dito, dois mil anos antes, o converso dos conversos.

Certeza das certezas: mesmo que, depois do deserto, passasse pelo vale tenebroso, Deus era agora o seu guia. Era absolutamente impossível haver o nada, em vez do ser.