[Em comemoração dos oitenta anos do escritor católico Vittorio Messori, o jornal italiano Corriere della Sera entrevistou-o. Abaixo, algumas de suas respostas].

“Os anos da nossa vida são setenta, oitenta para os mais robustos”. Salmo 90. A vida eterna é o único tema desta vida. Mas a Igreja hoje é um braço da ONU, não fala mais nisso, o que significa uma rendição ao mundo. Mas Evangelho significa boa notícia, em grego. Jesus não tratou de política, em sua pregação (não condenou nem a escravidão). Veio para nos abrir as portas do céu.

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Os santos nos ensinam que só vai ao inferno quem quer, quem nega a Deus conscientemente.

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Depois da morte nos espera um tribunal. Os juízes infligem penalidades de acordo com a gravidade das faltas.

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Hans Urs von Balthasar disse, ou o fizeram dizer, que “o inferno existe, mas está vazio”. Pode ser. No entanto, não pretendo ser o primeiro inquilino a inaugurá-lo.

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Rezo para que a morte me encontre vivo e seja poupado de uma morte súbita: gostaria de despedir-me com o conforto dos sacramentos.

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Fui o aluno preferido de Norberto Bobbio, Alessandro Galante Garrone e Luigi Firpo, os “trimúrti” do secularismo. Não tinha intenção de me tornar cristão, muito menos católico. Mas eu caí em uma espécie de buraco branco. Foi em 1964, o verão mais quente do século passado. Meus pais, ambos anticlericais, estavam de férias. Eu estava checando uma citação do Evangelho, que nunca havia aberto na minha vida. Eu não sei o que aconteceu comigo. Tentei resistir, mas não havia nada a ser feito. Quando minha mãe descobriu a conversão, queria que eu fosse ver um psiquiatra. Galante Garrone deserdou-me moralmente na primeira página do jornal La Stampa. Se hoje ele apontasse uma arma em minha cabeça e me pedisse para afirmar que o Evangelho é uma farsa, eu diria: pode atirar”.

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O que me interessa é a fé, a própria possibilidade de acreditar, de apostar na verdade do Evangelho. O resto é apenas uma consequência. Ética, sociedade, trabalho, política … Tudo necessário, mas absurdo, se não se testa primeiro a existência e a resistência do prego que deve sustentar tudo. E esse prego é Jesus.

https://www.corriere.it/cronache/21_marzo_02/vittorio-messori-adesso-scommetto-morte-perche-so-chi-ho-creduto-264501a6-7b93-11eb-a9cc-1eebe11a6a7c.shtml